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El Niño 2026: depois do choque logístico de 2023, Manaus volta a acender o alerta para o escoamento de filmes e embalagens

A seca de 2023 interrompeu a navegação de grandes embarcações, elevou custos e colocou a cadeia de suprimentos da Zona Franca sob pressão. Agora, com um El Niño que pode atingir intensidade excepcional, a indústria tem motivos concretos para se preparar antes que os rios comecem a impor restrições.

Existe uma diferença enorme entre alarmismo e gestão de risco.

O que está acontecendo agora na Amazônia ainda não permite afirmar que 2026 repetirá ou superará as secas históricas de 2023 e 2024. A própria Agência Nacional de Transportes Aquaviários, a ANTAQ, informou em agosto que, até o momento, não está configurada uma seca extrema semelhante à daqueles dois anos.

Mas há outro dado impossível de ignorar: o El Niño de 2026 está ficando muito forte, e muito rapidamente.

Em sua atualização de 13 de agosto, o Climate Prediction Center da NOAA informou que o fenômeno continua se intensificando e atribuiu probabilidade superior a 90% de que atinja intensidade muito forte no segundo semestre de 2026 e no período 2026-2027. Para o trimestre outubro-novembro-dezembro, a agência calculou ainda 69% de probabilidade de o evento alcançar um patamar histórico, acima de todos os eventos registrados desde 1950 conforme o índice utilizado.

Para quem produz, compra, vende ou transporta filmes plásticos, resinas e embalagens a partir de Manaus, isso muda a conversa. Porque a indústria amazonense já viu esse filme antes. E ele não terminou bem.

2023 mostrou quanto custa esperar o rio baixar

Quem acompanhou a operação industrial de Manaus em 2023 sabe que a expressão “problema de navegabilidade” é pequena demais para o que aconteceu.

A estiagem levou o Rio Negro a 13,51 metros em outubro, naquele momento o menor nível em mais de 120 anos de monitoramento. A navegação de navios de grande porte foi interrompida e a cadeia de suprimentos do Polo Industrial de Manaus sentiu o efeito imediatamente — tanto na entrada de insumos quanto no escoamento da produção.

Um estudo publicado por pesquisadores do Banco Central estimou, com base em dados do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, que as despesas logísticas extraordinárias — transbordo, estadia e fretes adicionais — chegaram a aproximadamente R$ 1,4 bilhão. A indústria havia se preparado para cerca de 30 dias de interrupção. Na prática, o problema se aproximou de 60.

Esse número merece ser lido novamente: R$ 1,4 bilhão em custos extraordinários de logística.

Não se trata apenas de comunidades isoladas ou embarcações pequenas com dificuldade para navegar. Trata-se de uma das principais regiões industriais brasileiras perdendo previsibilidade logística. Em 2023, aproximadamente 91% do volume físico das importações do Amazonas entrou pelo Porto de Manaus, segundo o mesmo estudo. Quando a água baixou, o problema chegou direto às fábricas.

E quem trabalha com produção industrial conhece a sequência: primeiro atrasa o insumo, depois aumenta o frete, depois surge o transbordo, o estoque apertta, o prazo prometido ao cliente deixa de ser confiável — e, no limite, a máquina está disponível para produzir e falta matéria-prima para mantê-la rodando.

2024 provou que o recorde pode ser quebrado de novo

Como se 2023 não tivesse sido suficiente, 2024 trouxe a segunda lição. O Rio Negro voltou a cair e atingiu 12,11 metros em Manaus, superando negativamente o recorde do ano anterior e estabelecendo nova mínima histórica da série iniciada em 1902.

Em dois anos consecutivos, limites considerados históricos foram testados. Isso deveria alterar definitivamente a forma como as empresas da região enxergam estoque, transporte e planejamento de produção. Seca extrema deixou de ser anomalia imprevisível: passou a fazer parte da matriz de risco.

El Niño forte não significa automaticamente seca recorde

Esse ponto precisa ficar claro. Não existe regra dizendo que El Niño mais forte equivale a rio obrigatoriamente mais baixo. A própria NOAA ressalta que a intensidade do fenômeno aumenta a probabilidade de determinados impactos, mas não determina sozinha sua magnitude.

Na Amazônia entram outras variáveis. Em 2023, a ANA explicou que a seca extrema foi intensificada pela combinação entre o El Niño no Pacífico e o aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Norte.

O boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por INPE, INMET, ANA, CEMADEN, SGB, Defesa Civil e CENSIPAM, mostrou que em junho de 2026 a condição de seca na Região Norte ainda era mais amena que no mesmo período de 2023 — Amazonas, Acre e Rondônia apresentavam focos de seca grave em 2023 que não apareciam com a mesma intensidade agora.

Ou seja: hoje o sinal climático é mais preocupante, mas a situação hidrológica ainda não é a de 2023. Não é hora de anunciar catástrofe. É hora de usar a janela que ainda existe.

O problema é o que pode acontecer daqui para frente

A previsão para agosto, setembro e outubro de 2026 indica maior probabilidade de chuvas abaixo da média em grande parte do centro-norte do Brasil, inclusive em áreas da Amazônia. O CENSIPAM também trabalha com precipitação abaixo da média em áreas do Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Rondônia e Acre.

Há ainda outro ingrediente: o fortalecimento do El Niño pode atrasar o estabelecimento da estação chuvosa, prolongando condições de estação seca durante a primavera. Menos oportunidade de recuperação dos níveis dos rios justamente quando a navegabilidade fica mais sensível.

Uma coisa é movimentar uma bobina de filme ou uma carga de resina com o canal em operação normal. Outra é fazer a mesma operação com restrição de calado, menor capacidade por embarcação, transbordo, estrutura flutuante provisória e pressão sobre a disponibilidade de transporte.

Filmes, resinas e embalagens: onde está a vulnerabilidade

Para a cadeia de embalagens, o problema tem duas direções.

De um lado, a entrada de matérias-primas: resinas, aditivos, componentes, peças e materiais auxiliares precisam chegar às fábricas. Do outro, a saída da produção: filmes, bobinas, laminados e embalagens convertidas precisam deixar Manaus e alcançar clientes em outras regiões.

Quando a hidrovia perde capacidade, as duas pontas sofrem ao mesmo tempo. O efeito é perverso: a empresa paga mais caro para receber matéria-prima e, dias depois, paga mais caro novamente para despachar o produto acabado. Menor calado pode exigir embarcações diferentes, redistribuição de carga, alteração de escalas, transbordo e mais tempo de viagem — e o custo aparece em lugares onde normalmente ninguém olha.

A “Taxa de Seca” já entrou novamente no radar

Um sinal de que o mercado está levando o risco a sério veio da ANTAQ. Em agosto, a Agência voltou a tratar da possibilidade da Low Water Surcharge (LWS), a chamada Taxa de Seca, aplicada por empresas de navegação diante de restrições hidrológicas. A ANTAQ determinou que empresas de navegação de contêineres comuniquem previamente qualquer cobrança e apresentem os fundamentos técnicos, operacionais e financeiros que a justifiquem.

Isso não significa que a taxa será necessariamente cobrada. Significa que o cenário já é relevante o suficiente para o regulador colocar o assunto sobre a mesa antes de o problema aparecer. Para compras e logística, o aviso é claro: o custo futuro pode não estar no preço da resina ou do filme, e sim no transporte.

A resposta oficial também mudou

O Ministério de Portos e Aeroportos e o DNIT passaram a estruturar monitoramento mais permanente das hidrovias, envolvendo níveis dos rios, vazões, profundidade de canais, dragagem de manutenção e sinalização náutica. Em agosto, a ANTAQ orientou empresas de navegação, portos, terminais e operadores amazônicos a manter ou atualizar planos de contingência para eventos hidrológicos extremos.

Entre as alternativas mencionadas oficialmente estão embarcações de menor calado, reorganização de escalas, redistribuição de cargas, transbordo, estruturas flutuantes, píeres provisórios e afretamento excepcional. É exatamente a mesma lógica que deveria entrar nos planos das indústrias.

O que os fabricantes de filmes deveriam fazer agora

Esperar setembro, outubro ou novembro para discutir o problema é transformar gestão de risco em gestão de crise.

1. Rever o estoque de segurança. A pergunta é direta: quantos dias conseguimos produzir se o lead time de uma matéria-prima dobrar? Uma operação que depende dos rios amazônicos não pode dimensionar estoque como se estivesse a 100 quilômetros do fornecedor. A conta precisa considerar o custo de parar.

2. Separar matérias-primas críticas das comuns. Resinas sem substituto imediato, aditivos importados, masterbatches especiais, filmes de especificação exclusiva, peças críticas de máquinas, cilindros e clichês. É por aí que o estoque de contingência começa.

3. Conversar agora com os operadores logísticos. A pergunta correta não é “vocês conseguem entregar?”, mas “qual é o seu plano se houver restrição severa de calado?”. Existe transbordo? Embarcação alternativa? Píer flutuante? Previsão contratual para adicional de seca? Qual o limite de reajuste e a prioridade de embarque? Essas respostas precisam existir antes da crise.

4. Trabalhar com cenários, não com uma única previsão. O S&OP deveria contemplar navegação praticamente normal, restrição moderada (queda de capacidade, mais lead time, impacto de frete) e restrição severa (dificuldade para embarcações maiores, transbordo necessário, custos significativamente maiores).

5. Transformar nível dos rios em indicador de gestão. A empresa acompanha dólar, preço de resina, pedidos, OEE e estoque. Para quem depende de Manaus, falta um item no painel: nível e tendência dos rios — velocidade de descida, previsão de chuva nas cabeceiras, restrições de calado e comunicados dos operadores. É informação de negócio.

A vantagem competitiva pode estar simplesmente em não parar

Por muitos anos, produtividade industrial foi tratada como questão de máquina, mão de obra, setup, velocidade, refugo e eficiência. Tudo isso continua importante. Mas uma fábrica não produz sem matéria-prima — e não adianta produzir se não consegue entregar.

Uma empresa pode ter OEE excelente e processos bem controlados. Se a resina estiver parada em uma embarcação que não consegue chegar a Manaus, nada disso mantém a produção rodando. Da mesma forma, uma extrusora pode produzir perfeitamente suas bobinas: sem capacidade logística para retirá-las da região no prazo, o problema apenas mudou de endereço — saiu da máquina e foi para o estoque.

Em agosto de 2026, a Amazônia ainda não vive uma repetição de 2023 e 2024. Essa é a fotografia atual e precisa ser respeitada. Mas o filme está no começo: o El Niño se fortalece, as previsões apontam menos chuva no centro-norte, há possibilidade de atraso na estação chuvosa e a região entra no período em que o comportamento dos rios se torna decisivo para a logística.

O maior erro agora seria olhar para um rio ainda navegável e concluir que o problema não existe. Em 2023, quando ele apareceu de verdade, muitas decisões já estavam atrasadas.

O aprendizado é até simples: estoque se compra antes da falta, frete se negocia antes da restrição, rota alternativa se testa antes da emergência e plano de contingência se escreve antes de precisar dele.

A seca de 2023 mostrou quanto pode custar uma Amazônia com pouca água. O El Niño de 2026 está dizendo que talvez não seja prudente esperar para descobrir quanto custará a próxima. Para extrusores, convertedores, distribuidores e demais empresas da cadeia, a vantagem competitiva dos próximos meses pode não estar em produzir alguns metros por minuto a mais — e sim em ter matéria-prima para produzir e uma rota disponível para entregar.

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