Falta de trabalhadores já interrompe turnos e pressiona modernização na indústria do plástico

Relatos apresentados no Fórum Competitividade mostram como a dificuldade de contratar interfere na operação e reforçam o debate sobre automação, gestão de pessoas e preparação das empresas para a inteligência artificial.
A falta de trabalhadores começa a aparecer como uma restrição à operação industrial. Durante o 16º Fórum Competitividade, promovido por ABIPLAST, SINDIPLAST e Plásticos em Revista, representantes de empresas relataram dificuldades para preencher postos de trabalho e manter turnos em funcionamento. O problema foi acompanhado de outro alerta: modernizar a indústria exige combinar tecnologia, desenvolvimento das equipes e organização das informações.
Na síntese do encontro publicada pela ABIPLAST em 16 de outubro, a discussão sobre produtividade conecta desafios que frequentemente recebem tratamentos separados: disponibilidade de mão de obra, atratividade do trabalho industrial, automação de tarefas repetitivas e uso de dados para apoiar a transformação digital.
Quando a contratação limita a operação
Um dos relatos mais diretos veio de Priscilla Guazelli, diretora de Recursos Humanos da Astra.
“Está sendo muito comum as empresas pararem turnos de trabalho por falta de pessoas para trabalhar nas operações”, afirmou a executiva durante o encontro.
“Está sendo muito comum as empresas pararem turnos de trabalho por falta de pessoas para trabalhar nas operações”
A declaração coloca a dificuldade de contratação em uma dimensão que vai além da gestão de vagas. Nas situações descritas, a ausência de trabalhadores interfere na capacidade de manter a estrutura produtiva em funcionamento.
É necessário, entretanto, distinguir o alerta empresarial de um diagnóstico estatístico. A publicação da ABIPLAST não informa quantas empresas interromperam turnos, a frequência dessas ocorrências ou o volume de produção comprometido. Os depoimentos evidenciam uma preocupação entre os participantes, mas não permitem medir a extensão do problema em toda a indústria do plástico.
Ainda assim, a discussão muda de patamar quando a dificuldade de formar equipes passa a comprometer a continuidade operacional. A disponibilidade de pessoas deixa de ser apenas uma questão de recrutamento e passa a integrar a avaliação sobre como organizar o trabalho industrial.
Automação também entra na resposta à falta de pessoas
Ao tratar da dificuldade de atrair profissionais para determinadas funções, Priscilla defendeu a modernização dos processos. Na avaliação apresentada pela executiva, existem atividades que as pessoas já não desejam executar e que poderiam ser realizadas por máquinas.
Nesse contexto, a automação aparece não apenas como instrumento de redução de custos, mas como parte da discussão sobre a continuidade de tarefas que encontram dificuldades de preenchimento de postos de trabalho.
Para a indústria de transformação de plásticos, o debate suscita uma revisão da distribuição das atividades: quais tarefas repetitivas podem ser automatizadas e em quais etapas a experiência humana precisa ser preservada ou ampliada?
Essa reflexão não equivale a uma recomendação de substituir indiscriminadamente postos de trabalho. No próprio fórum, a transformação tecnológica foi associada à valorização do conhecimento das equipes e à participação dos profissionais que acompanham os processos diariamente.
A questão, portanto, não se resume à escolha entre pessoas e máquinas. O debate aponta para a necessidade de repensar como ambas participam da operação.
Atratividade do trabalho também está em discussão
A dificuldade de contratar foi acompanhada por reflexões sobre desenvolvimento profissional e expectativas dos trabalhadores.
Neide Moreno, gestora de Recursos Humanos da Termocolor, relatou desafios de contratação e abordou a busca por oportunidades de desenvolvimento alinhadas às expectativas dos profissionais. A conciliação entre vida pessoal e profissional também apareceu em sua avaliação.
Priscilla, por sua vez, defendeu que as empresas revejam suas expectativas sobre a permanência dos trabalhadores e considerem ciclos profissionais mais curtos nas estratégias de gestão.
Os depoimentos ampliam a discussão. Se a modernização envolve rever equipamentos e tarefas, também exige olhar para a experiência oferecida às pessoas: perspectivas de crescimento, organização do trabalho e relacionamento com as lideranças.
Essa combinação evita reduzir um problema complexo a uma resposta exclusivamente tecnológica. No encontro, gestão de pessoas e modernização apareceram como dimensões relacionadas da transformação industrial.
Inteligência artificial depende de uma base organizada
A transformação digital foi outro eixo do fórum. Nesse campo, o recado apresentado pelos participantes foi que a adoção de ferramentas precisa estar vinculada a objetivos definidos e à preparação das empresas.
Rodrigo Fabian Galvez, CEO da BALQ, destacou que digitalizar envolve mudanças culturais, comunicação e participação das lideranças. Também defendeu o envolvimento dos empresários na definição das perguntas que as ferramentas devem responder.
Ao abordar inteligência artificial, Galvez sintetizou uma condição para avançar: “Para arrancar bons resultados com a IA, é preciso organizar os dados o quanto antes”.
Erasmo Fraccalvieri, CEO da EF Desenvolvimento, reforçou a importância de começar por um problema concreto, estruturar os dados e ouvir os profissionais que utilizarão a solução. Sua apresentação também apontou possibilidades de aplicação da IA nos escritórios, nas áreas comerciais e no atendimento aos clientes, além do ambiente fabril.
A orientação registrada no encontro estabelece uma sequência: identificar a necessidade, organizar as informações e envolver os usuários antes de esperar resultados da tecnologia.
Uma agenda integrada para a competitividade
Os relatos reunidos pela ABIPLAST aproximam contratação, automação, desenvolvimento profissional e inteligência artificial. Embora cada tema tenha suas particularidades, o debate os conecta à capacidade das empresas de operar e melhorar seus processos.
Para os transformadores de plásticos e fabricantes de embalagens, a reflexão central é incorporar a disponibilidade de mão de obra à discussão sobre capacidade produtiva. Ao mesmo tempo, projetos tecnológicos precisam ser avaliados a partir dos problemas que devem resolver — e não apenas das ferramentas disponíveis.
O desafio apresentado pelo fórum vai além de encontrar trabalhadores para manter a organização atual da fábrica. Envolve examinar quais atividades precisam mudar, como aproveitar o conhecimento das equipes e que informações são necessárias para orientar essa transformação.